01 / 01 / 2020Marina Amaral

PT-BR || Chana Weingarten

Chana Weingarten nasceu como Hana Wertheimerová em 1929 em Znojmo, no sul da Moravia. Seu avô era dono de uma fábrica que produzia pepinos em conserva e frutas cristalizadas, enquanto seu pai era o encarregado pelas compras. Em 1938, a ameaça nazista obrigou a família a fugir de Znojmo. No início, eles se refugiaram na casa de parentes em Jihlava, em seguida, se mudaram para Prostějov e, finalmente, para Praga. O pai de Chana foi o primeiro a ser capturado. Em 6 de março de 1943, ela e sua mãe foram deportadas e enviadas para Terezín.

Nessa entrevista que fiz com ela em 2015, Chana responde uma série de perguntas enviadas por alunos de pré-vestibular, e ensino médio de escolas públicas.

Primeiro eu quero me apresentar à vocês. Meu nome é Chana Weingarten, hoje vivo em Tel Aviv e tenho 85 anos. Nasci na Czechoslovakia, atualmente chamada de República Checa. Meu marido Abraham morreu há 8 meses. Ele tinha 89 anos e nós fomos casados por 63. Tenho 3 filhos e 6 netos, de 7 a 22 anos de idade. Meu marido e eu nos graduamos pela University of California, nos Estados Unidos, e sou nutricionista por profissão.

 

– Como era a sua vida antes da guerra?
A vida antes da guerra era muito boa. Naquele tempo eu ainda era uma criança. Nós vivíamos numa pequena cidade perto da fronteira com a Áustria. Eu tinha uma irmã 4 anos mais velha, e eu, meus pais e vários conhecidos morávamos nessa cidade, chamada Znojmo. Eu amava ir ao jardim de infância, e, mais tarde, para a escola regular. Eu amava vários esportes diferentes, tinha muitos amigos. Isso durou até o outono de 1938, quando Hitler veio e nós tivemos que deixar tudo para trás. Na mesma noite nós tivemos que deixar Znojmo, e aí a minha vida inteira mudou.

 

– Para qual campo de concentração a senhora foi enviada?
Minha irmã foi enviada junto a outras crianças para a Palestina. Meu pai foi pego no meio da rua e nós nunca mais o vimos. Minha mãe e eu fomos enviadas para Theresiendstadt (ou Terezín, um gueto e campo de concentração na Czechoslovakia), depois para Auschwitz (Polônia), depois para Hamburgo (Alemanha) e então para Bergen-Belsen (Alemanha).

 

– Como foi seu primeiro dia nos campos?
Em Theresienstadt eu vi minha avó dormindo no chão, com fome o tempo inteiro, na companhia de 20 estranhos amontoados no mesmo quarto. Não havia nada que eu pudesse fazer para ajudá-la. Em Auschwitz foi provavelmente onde eu vi e passei pelas piores coisas. No meio da noite, quando chegamos de trem, o pessoal da SS estava esperando por nós, gritando e segurando cachorros imensos que avançavam o tempo todo. Fomos tratados como animais. Eu estava com a minha mãe e a minha avó. Fomos enviadas para o banho, onde tivemos que deixar todas as nossas coisas. Em seguida, ganhamos uniformes de prisioneiros e fomos tatuadas com um número de identificação no braço. Depois disso, fomos enviadas para um grande galpão com cerca de mais 800 pessoas. Quando cheguei à Hamburgo eu desmaiei, provavelmente porque nós estávamos com muita fome e extremamente fracos. Em Bergen-Belsen eu cheguei aproximadamente dois meses antes da guerra acabar. A SS já sabia que eles estavam perdendo a guerra, mas as condições lá eram horríveis. Haviam milhares de corpos espalhados por todos os lados, assim como lá fora, nas ruas. Assim é como eu me lembro dos meus primeiros dias.

 

– Como era a sua rotina?
Ela era diferente em cada lugar. Nós trabalhávamos muito pesado. Eu tinha certeza que a guerra era injusta, e que por isso acabaria logo.

 

– Qual foi a pior coisa que a senhora viu quando esteve presa? Se lembra de algum episódio em particular?
Eu vi e me lembro de muitas coisas horríveis. Quando nós chegamos em Auschwitz eu pude ver várias chaminés, de onde não saía apenas fumaça, mas também grandes chamas. Como eu já tinha visto muitas chaminés quando estava em casa, na minha cidade, eu pensei que eram chaminés de fábricas como aquelas que eu estava acostumada a ver. Mas então eu conheci algumas amigas que tinham chegado em Auschwitz há alguns meses e elas me explicaram que ali as pessoas eram queimadas vivas. Eu não podia acreditar de jeito nenhum que isso era possível. Mas era. Outro episódio terrível: uma vez que os alemães estavam no front de batalha, não havia um número suficiente de trabalhadores na Alemanha. Então, eles decidiram que antes de matar os judeus, fariam uma seleção, e iriam escolher aqueles que poderiam trabalhar, que tinham condições físicas para isso. Todas as pessoas entre 16 e 40 anos teriam que ir a essa seleção. Eu tinha 14 anos, minha mãe 43, e nós decidimos que iríamos nos apresentar dizendo a eles que eu tinha 16 e ela 40. Minha avó tinha 60 anos, e, portanto, não podia dizer que tinha 40, então ela não pôde ir conosco. Essa seleção foi feita ainda em Auschwitz. Nós tivemos que nos dirigir todos nus para a SS e dizer a nossa idade. A partir disso eles nos selecionavam para o trabalho. Nós nunca vimos a minha avó de novo. Todas as pessoas que não foram ou não passaram nessa seleção foram queimadas alguns dias depois. Junto a eles haviam muitas pessoas jovens que tinham filhos pequenos e que com certeza não gostariam de deixá-los morrer sozinhos.

 

– No campo vocês tinham alguma informação sobre o progresso da guerra?
Nós não tínhamos acesso a jornais e nenhuma conexão com o mundo exterior, então não sabíamos nada que estava acontecendo lá fora.

 

– Nós ouvimos dizer que se todas as vítimas tivessem se unido nos campos elas teriam conseguido lutar contra os nazistas porque estavam em maior número. A senhora acha que isso era realmente possível? Quando estava lá, passou pela sua cabeça reunir todos os prisioneiros para tentarem fugir?
Existiam vários lugares aonde eles podiam tentar fazer algo contra os soldados da SS, mas ainda assim não daria certo. Mesmo que alguns tivessem munição e armas, muitos não teriam, e assim não se poderia obter sucesso.

 

– A senhora conheceu Anne Frank quando esteve em Bergen-Belsen?
Eu nunca conheci a Anne, mas conheço a sua história.

 

– O que passava pela sua cabeça sabendo que muitas pessoas estavam morrendo e que a qualquer momento poderia ser você?
Ver as pessoas morrendo é muito difícil para qualquer um, mas como eu era uma criança, eu era muito otimista, e como eu acreditava que a guerra acabaria a qualquer momento, eu não achei que ia morrer. Não se esqueça: as crianças às vezes sonham…

 

– Qual era o seu sentimento em relação aos nazistas? Ele é o mesmo até hoje?
Nós sentíamos muito medo e ficávamos muito assustados quando víamos os soldados da SS porque sabíamos que eles eram muito maus e que seríamos punidos por nada. Agora ainda existem alguns soldados vivos, mas os que restaram estão muito velhos. Só para vocês saberem, também existiam mulheres na SS. Não eram apenas homens.

 

– Como foi o dia da sua libertação? 
Quando nós fomos libertados pelos soldados britânicos, em 15 de abril de 1945 em Bergen-Belsen, nós estávamos tão doentes, famintos e fracos que nem entendemos que estávamos livres. O exército britânico não tinha nem ideia do que veriam lá, e nem estavam preparados para isso. Quando chegaram, eles tinham apenas alguns médicos e um pouco de comida, então não fomos tratados logo de cara. Não se esqueça de que a guerra ainda estava acontecendo, portanto haviam milhares e milhares de pessoas precisando de ajuda. Algumas pessoas ainda estavam morrendo, e entre essas estava também a minha mãe. Nós esperamos por esse momento durante 6 anos, e quando ele chegou, não conseguimos assimilar.

 

– O que aconteceu com a sua família?
Minha avó foi morta em Auschwitz, meu pai foi morto em Dachau e minha mãe morreu em Bergen-Belsen um mês antes da libertação.

 

– Quais foram as maiores dificuldades que a senhora enfrentou depois da guerra?
Eu não tive dificuldades depois da guerra, mas tive que retornar sozinha para Praga. Eu só tinha 15 anos e tive que tomar todas as decisões por minha conta.

 

– A senhora vive bem com as memórias desse tempo?
Claro que posso viver com todas essas memórias, mas não é muito fácil.

 

– Como definiria Hitler e os nazistas?
Eu não sei. Não posso entender como Hitler e vários outros alemães puderem fazer algo como o que eles fizeram.

 

– O que diria a Hitler hoje, se tivesse uma oportunidade?
Ele teria que explicar o motivo de ter feito o que fez.

 

– Qual foi a mais importante lição que o Holocausto nos deixou?
Ninguém tem o direito de matar ninguém.

 

Leia mais sobre Terezin: “Terezín, a cidade que já foi um campo de concentração nazista”

O livro As Meninas do Quarto 28 conta a história de algumas das 15 sobreviventes do Quarto 28 do Abrigo para Meninas de Theresienstadt, lugar por onde Chana passou. Ela faleceu em 2018.